Há algo de simbólico — quase poético — em Roger Federer caminhar novamente pelo Australian Open não como protagonista, mas como espectador privilegiado do próprio legado em movimento.
O suíço que transformou o tênis em gesto artístico agora observa o jogo como quem assiste a uma continuação bem escrita da própria história. E, entre tantos talentos da nova geração, seus olhos pousam com naturalidade sobre Carlos Alcaraz — não por nostalgia, mas por reconhecimento.
Não é só o forehand agressivo. Não é apenas o drop shot insolente, a subida à rede sem pedir licença ou a capacidade de atacar defendendo. O que Federer enxerga em Alcaraz é algo mais raro: a mentalidade de quem joga para impor sua identidade, não para sobreviver ao jogo.
Quando o suíço fala que se sente “conectado” à forma como o espanhol pensa o tênis, ele está dizendo, em bom português: esse garoto joga do jeito que acredita. E isso, no circuito atual — tão obcecado por potência, margem de erro e estatística — é quase um ato de rebeldia.
Ao mesmo tempo, Federer não ignora o outro polo dessa nova era. A rivalidade entre Alcaraz e Jannik Sinner é descrita por ele como “incrível”, e não por acaso. Onde Alcaraz improvisa, Sinner executa. Onde um cria, o outro sufoca. É o tipo de confronto que sustenta décadas de narrativa — exatamente como Federer viveu com Nadal e Djokovic.
Mas há um detalhe revelador em tudo isso: Federer não fala como mentor, nem como juiz do jogo. Ele fala como fã. Um fã que já esteve do outro lado da quadra, que conhece o peso de um Grand Slam, que sabe o que significa carregar expectativas aos 22 anos e ainda assim jogar com liberdade.
Alcaraz chega a Melbourne tentando romper uma barreira pessoal: nunca passou das quartas de final ali. Se vencer, completa o career Grand Slam ainda jovem o bastante para reescrever a história da Era Aberta. Mas, mesmo antes de qualquer troféu, já carrega algo igualmente valioso: a bênção silenciosa de quem definiu o que é jogar bonito e ganhar ao mesmo tempo.
Quando Federer diz que vê seu estilo em Alcaraz, não está falando de cópia. Está falando de continuidade. O tênis, afinal, segue — só muda de mãos.

