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Crônicas Campeonato Mineiro 2026: Atlético x Betim (11/01/2026)

O Atlético x Betim aconteceu oficialmente como jogo de Campeonato Mineiro, mas espiritualmente foi outra coisa: um encontro terapêutico, um teste de paciência coletiva e uma aula prática sobre como o futebol consegue ser levado a sério mesmo quando faz força para não ser.

Era a estreia do Galo na temporada. Ano novo, esperança nova, discurso reciclado. A Arena MRV abriu as portas como quem diz: “entre, torcedor, venha sofrer conosco mais uma vez”. Do outro lado, o Betim — esse simpático representante da Região Metropolitana, sempre pronto para cumprir o papel que o destino lhe reservou: servir de espelho humilde para os dramas existenciais do Atlético.

O jogo começou daquele jeito clássico: Atlético com a bola, Betim com a vida. Posse de bola de 73%, passes laterais em profusão e aquele clima de treino aberto que só acaba quando alguém lembra que o placar existe. O Galo rodava, rodava, rodava… e parecia estar procurando não o gol, mas o sentido da existência humana.

O Betim, consciente do seu lugar na cadeia alimentar do futebol mineiro, se defendia como quem protege a última coxinha da festa. Onze homens atrás da linha da bola, dois pensamentos na cabeça: “não passar vergonha” e “se der, empatar já é título”.

E o Atlético? Ah, o Atlético vivia seu dilema favorito: ser melhor e não saber exatamente o que fazer com isso. Tocava bonito até a intermediária, chegava perto da área e, de repente, travava. Era como um carro de luxo enguiçando no semáforo: impressiona, mas não anda.

A cada cruzamento errado, a torcida exercitava o velho repertório emocional: ironia, suspiro profundo, xingamento criativo e, claro, a frase obrigatória — “é só o primeiro jogo do ano”. Essa frase, inclusive, já deveria vir estampada no uniforme oficial do clube.

O primeiro tempo passou como passam as segundas-feiras: lentamente, sem brilho e deixando a sensação de que nada realmente aconteceu. O Betim saiu ileso. O Atlético saiu pensativo. E o torcedor saiu para buscar café, porque ninguém merece enfrentar o segundo tempo sem algum tipo de anestesia.

Na volta do intervalo, o Galo decidiu mudar. Não o suficiente para resolver tudo, claro — isso seria pedir demais — mas o bastante para dar a falsa impressão de que algo estava sendo feito. Entraram jogadores, saíram outros, e o esquema tático passou daquela fase “ousado no PowerPoint” para “improvisado na prática”.

O Betim, por sua vez, começou a ousar. Nada muito radical, apenas aquele atrevimento tímido de quem pensa: “e se a gente subir um pouco?”. Resultado: um ou dois sustos, um chute de fora da área, e a torcida atleticana lembrando que confiança excessiva sempre cobra juros altos.

Quando o gol finalmente saiu — porque ele sempre sai, nem que seja por cansaço moral do adversário — não foi exatamente uma obra-prima. Foi mais um gol com cara de “obrigação cumprida”, daqueles que não entram para a história, mas evitam uma crise institucional.

A comemoração foi contida. Não havia euforia. Era mais um alívio coletivo, como quem paga boleto atrasado. Jogadores se abraçaram com a alegria de quem pensa: “ok, ninguém vai pedir nossa cabeça hoje”.

O Betim, derrotado, saiu com dignidade. Fez o que pôde, vendeu caro o placar e, no fundo, cumpriu sua missão histórica: ajudar o Atlético a não se complicar sozinho logo na largada. Pequenos gestos também constroem a história do futebol.

Já o Atlético saiu vencedor, mas não ileso. Ficou claro que a temporada promete emoções fortes — no sentido cardiológico do termo. O time tem peças, tem elenco, tem discurso… só precisa juntar tudo isso em campo antes que a paciência da torcida entre oficialmente em estado de alerta vermelho.

Atlético x Betim foi isso: um jogo que serviu menos para medir futebol e mais para medir expectativas. O Galo ganhou, sim. Mas, como sempre, deixou aquele recado implícito: comigo, nunca será simples.

E talvez seja exatamente por isso que o torcedor volte. Porque amar o Atlético não é sobre facilidade. É sobre resistência.