A política brasileira viveu um novo capítulo histórico nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026. Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi transferido da Superintendência da Polícia Federal para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, unidade militar situada dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, e popularmente conhecida como “Papudinha”.
A decisão ocorre em meio ao cumprimento da pena de 27 anos de prisão à qual Bolsonaro foi condenado por crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. A transferência não é apenas uma mudança de endereço, mas uma alteração significativa nas condições de custódia do ex-mandatário, baseada em prerrogativas legais e necessidades de saúde.
O que é a Papudinha?
Diferente das grandes alas de concreto que compõem o sistema prisional comum, a Papudinha é um Núcleo de Custódia da Polícia Militar (NCPM). O local foi desenhado para abrigar militares da ativa que cometem crimes, mas a lei brasileira também prevê que autoridades de alta hierarquia, magistrados e advogados tenham direito à chamada Sala de Estado-Maior.
Localizada na região administrativa de São Sebastião, a menos de 20 quilômetros da Praça dos Três Poderes, a unidade é consideravelmente menor e mais controlada do que o restante do complexo. Enquanto a Papuda “comum” sofre com uma superlotação crônica — abrigando mais de 14 mil detentos em cerca de 8 mil vagas —, a Papudinha tem capacidade para apenas 60 presos e, até o final de 2025, operava próxima do seu limite com cerca de 50 custodiados.
As Razões de Alexandre de Moraes
A transferência foi motivada por um pedido da defesa que alegava a necessidade de cuidados médicos específicos para o ex-presidente. Em sua decisão, o ministro Moraes destacou que a estrutura da Polícia Federal, embora segura, era limitada para o tratamento de longo prazo.
Na Papudinha, Bolsonaro terá permissão para:
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Realizar fisioterapia: Foi autorizada a instalação de aparelhos como esteira e bicicleta ergométrica dentro de sua área de custódia.
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Banho de sol livre: Diferente do regime rígido da PF, ele poderá se exercitar ao ar livre em qualquer horário do dia.
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Visitas estendidas: O novo regime permite um tempo maior de convivência com familiares e advogados.
Como é a “Sala de Estado-Maior” de Bolsonaro?
Esqueça a imagem de uma cela com grades de ferro e beliches de cimento. O espaço destinado a Jair Bolsonaro possui 54,7 metros quadrados de área interna, acrescidos de uma área externa de 10 metros quadrados. Para fins de comparação, o local é cerca de cinco vezes maior do que a cela onde ele se encontrava anteriormente.
A estrutura assemelha-se a um pequeno apartamento funcional, contendo:
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Quarto e Sala: Ambientes separados com mobiliário residencial comum.
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Cozinha e Lavanderia: Permitindo uma autonomia mínima para o detento.
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Confortos Adicionais: É permitida a presença de chuveiro elétrico, televisão e ventiladores.
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Alimentação Especial: Moraes determinou que a alimentação de Bolsonaro seja diferenciada, podendo ser fornecida externamente sob indicação da defesa e armazenada em geladeiras na própria unidade.
Segundo advogados que frequentam o batalhão, o tratamento dispensado pelos policiais militares aos custodiados é “muito mais humano” do que no sistema convencional. Não há o barulho ensurdecedor das alas superlotadas, o cheiro forte de esgoto ou as constantes queixas sobre comida estragada que marcam os relatórios da Defensoria Pública sobre a Papuda.
O Histórico da Unidade e Outros Presos Célebres
A Papudinha tem um histórico de receber figuras políticas de alto escalão. No passado, o ex-ministro José Dirceu e o atual presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, passaram pelo local. Atualmente, o ex-ministro da Justiça Anderson Torres também cumpre sua pena no 19º BPM, condenado pelos mesmos desdobramentos da trama golpista de 2022/2023.
A unidade também foi o endereço temporário da cúpula da Polícia Militar do DF, investigada por omissão nos atos de 8 de janeiro. A estrutura foi reformada em 2020 e conta com consultório médico interno, onde profissionais da Secretaria de Saúde realizam atendimentos semanais.
A Condenação: Por que Bolsonaro está preso?
A transferência ocorre um ano após o julgamento histórico que condenou a cúpula do governo anterior. Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), aceita pelo STF, Bolsonaro liderou uma organização criminosa que utilizou a estrutura do Estado para tentar impedir a posse do presidente eleito em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva.
Os crimes imputados e confirmados pelo Supremo foram:
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Golpe de Estado: Pela tentativa de ruptura institucional.
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Abolição violenta do Estado Democrático de Direito: Pelas pressões sobre as Forças Armadas e órgãos de segurança.
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Organização Criminosa Armada: Pelo envolvimento de militares e milícias digitais.
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Dano Qualificado e Deterioração de Patrimônio Tombado: Em referência aos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Além de Bolsonaro, nomes como Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira também receberam sentenças pesadas, marcando o que o STF chamou de “resposta institucional definitiva contra o autoritarismo”.
O Contraste com o Sistema Comum
A transferência para a Papudinha levanta debates sobre a desigualdade do sistema carcerário brasileiro. Enquanto Bolsonaro usufruirá de uma sala individual com ventilação e alimentação especial, a poucos metros dali, presos comuns enfrentam celas onde a água por vezes chega turva e a assistência médica demora meses.
Relatórios recentes da Defensoria Pública do DF mostram que a reclamação número um dos detentos da Papuda é a comida apodrecida e a falta de materiais básicos de higiene. No 19º BPM, os contratos de alimentação são distintos e geridos pela própria Polícia Militar, garantindo um padrão de qualidade superior.
O que esperar a partir de agora?
Com a mudança para a Papudinha, o ex-presidente Jair Bolsonaro entra em uma rotina de cumprimento de pena mais estável e adequada às suas condições físicas. A Vara de Execuções Penais continuará monitorando a segurança do local, especialmente para evitar que a presença de uma autoridade tão polarizadora gere instabilidades dentro do batalhão militar.

