O vírus Nipah não chegou fazendo barulho. Nada de coletiva de imprensa com PowerPoint malfeito, nada de “novo normal” estampado em caneca. Ele apareceu como quem bate à porta às três da manhã: educado, silencioso e absolutamente assustador. E, como todo visitante indesejado da história recente da humanidade, veio escoltado por morcegos, hospitais em alerta e aquela frase que já virou gatilho coletivo: “alto potencial pandêmico”.
Depois da Covid, o mundo desenvolveu uma espécie de PTSD epidemiológico. Basta alguém dizer “70% de letalidade” e “sem vacina” na mesma frase para o planeta inteiro apertar o botão do pânico — ou, no mínimo, abrir o Twitter. O Nipah faz exatamente isso. Não grita, mas sussurra com eficiência: vocês não aprenderam nada, aprenderam?
A Índia, mais uma vez, virou palco desse ensaio macabro. Médicos e enfermeiros infectados, quarentenas improvisadas, autoridades tentando agir antes que o caos vire rotina. É o velho filme passando de novo, só que agora com um vilão ainda mais agressivo. O SARS-CoV-2 parecia um colega inconveniente de escritório. O Nipah é o chefe psicopata que chega dizendo: “isso aqui não é pessoal, é estatística”.
Setenta por cento de letalidade não é número. É ameaça. É um vírus que não negocia, não faz média, não entra em debate científico no horário nobre. Ele chega direto no cérebro, literalmente, causando encefalite, confusão mental, convulsões. Um vírus que transforma sintomas gripais em tragédia neurológica em questão de dias. Se fosse um roteiro de cinema, alguém diria que é exagerado. Mas a realidade anda com um roteirista sem freio desde 2020.
E, claro, não existe vacina. Nem tratamento comprovado. Apenas “cuidados de suporte”, esse eufemismo médico que significa “vamos tentar ganhar tempo enquanto o corpo decide se sobrevive”. É quase poético, se não fosse cruel. A OMS acompanha, os especialistas alertam, os relatórios se acumulam. O Nipah está naquela lista que ninguém quer ler, mas todo mundo deveria.
O mais irônico — ou trágico, dependendo do humor do dia — é que o mundo já sabe exatamente como esse tipo de história começa. Morcegos, desmatamento, contato humano desregulado com a vida selvagem, cadeias alimentares improvisadas, hospitais despreparados. O filme Contágio virou quase um documentário tardio. “O morcego errado encontrou o porco errado”, dizia a personagem. Em 2026, parece que o morcego continua encontrando todo mundo.
Enquanto isso, seguimos vivendo como se a próxima pandemia fosse sempre um problema do futuro. Como se vírus respeitassem fronteiras, vistos ou algoritmos de rede social. A globalização corre de jatinho; a vigilância sanitária, de ônibus. E quando o vírus percebe essa diferença de ritmo, ele agradece.
O Nipah não é só um alerta sanitário. É um espelho. Mostra o quanto o mundo continua apostando na sorte, na reação tardia, no “vamos ver no que dá”. Mostra também o cansaço coletivo: ninguém quer ouvir falar de máscaras, quarentenas ou protocolos. Mas vírus não se importam com fadiga emocional. Eles só precisam de oportunidade.
Talvez o Nipah não vire pandemia. Tomara que não vire. Mas o simples fato de ele poder virar já diz muito sobre o estado das coisas. Sobre como seguimos tratando ciência como despesa, prevenção como exagero e saúde pública como assunto chato — até deixar de ser.
O vírus Nipah está aí, quieto, letal e paciente. Ele não tem pressa. Quem deveria ter somos nós.

