Crônicas Campeonato Mineiro 2026 ATLETICO X TOMBENSE

Crônicas Campeonato Mineiro 2026: Atlético x Tombense (18/01/2026)

O Atlético resolveu “estrear” os titulares em 2026 como quem tira um carro antigo da garagem depois de meses parado: com expectativa, nostalgia… e aquele barulho estranho que ninguém sabe de onde vem. O empate em 0 a 0 com o Tombense, na Arena MRV, foi menos um jogo de futebol e mais uma sessão pública de constatação: o tempo passou, o calendário apertou e o Galo ainda está tentando entender em que ano está.

Era noite de reencontro. Hulk em campo depois da novela mexicana-minerada do “fica, não fica, vai pro Fluminense, se aposenta, vira estátua”. Bernard e Scarpa alinhados, Sampaoli de braços cruzados com cara de quem vê um quadro abstrato que ele mesmo pintou, mas não lembra exatamente o significado. O clima era de “agora vai”. Não foi.

O apito inicial trouxe aquela sensação conhecida do torcedor atleticano: a posse de bola dominante, organizada, quase elegante — e completamente inofensiva. O Atlético girava a bola como quem folheia um cardápio caro demais sem coragem de pedir nada. Tocava, voltava, invertia, respirava… e morria invariavelmente na intermediária. Criatividade zero, improviso nenhum, risco absolutamente controlado. Futebol de escritório.

O Tombense, claro, entendeu o jogo em cinco minutos. Recuou, compactou, apertou os espaços e passou a jogar com a tranquilidade de quem sabe que o relógio é seu melhor aliado. Cada desarme era um manifesto. Cada chutão, uma aula de pragmatismo. Cada ataque do Atlético, um convite à paciência infinita.

Hulk tentou. Mas Hulk parecia Hulk versão janeiro: forte, brigador, respeitado — e isolado. Marcado de perto, cercado por defensores que claramente combinaram antes do jogo que ninguém sairia da linha sem ele, o camisa 7 virou mais um ponto fixo no mapa do que uma ameaça real. Bernard flutuava, Scarpa pensava, Dudu corria… e o gol seguia sendo um conceito distante, quase teórico.

O primeiro tempo terminou como começou: com o Atlético dono da bola e o Tombense dono da melhor chance — uma bola na trave que serviu como lembrete cruel de que futebol não se ganha por currículo. A Arena MRV, linda e silenciosa por segundos constrangedores, parecia tentar entender se aquilo era falta de ritmo ou falta de ideias. Spoiler: um pouco dos dois.

No segundo tempo, o Atlético voltou com mais intensidade, como manda o manual. Foram oito minutos de ilusão coletiva: finalizações, movimentação, presença na área. Hulk parou no goleiro. Dudu errou o alvo. Bernard tentou o impossível. A bola rondava a área do Tombense como um drone curioso, mas nunca pousava.

Depois disso, o velho roteiro voltou a dominar. A ansiedade cresceu, o capricho sumiu, e o time começou a confundir pressa com velocidade. Chutes forçados, cruzamentos precipitados, decisões tomadas no grito interno do desespero. O Tombense se defendia como quem segura um empate histórico: com unhas, dentes e uma fé inabalável de que o relógio não trai.

Sampaoli observava tudo como um maestro diante de uma orquestra desafinada. Não faltam instrumentos, mas ninguém parece seguir a mesma partitura. O problema é que o calendário não tem paciência para processos longos. Em dez dias, tem Brasileirão. Palmeiras. Clássicos. Pressão. E esse Atlético ainda parece um rascunho em lápis, enquanto o resto do futebol já escreve de caneta.

Três jogos, três empates. Nenhuma vitória. Nenhum gol dos titulares em jogos oficiais. O discurso ainda é de começo de temporada, mas o relógio já está em modo cobrança. O novo calendário não permite luxo, nem tempo para “entrosamento gradual”. Ou acelera agora, ou vai correr atrás depois — e correr atrás, o torcedor atleticano sabe bem como dói.

O empate com o Tombense não é uma tragédia. Mas é um aviso. Um desses avisos que não gritam, mas incomodam. Porque quando o time titular estreia, e o sentimento é de decepção, o problema não é só ritmo. É direção. É ideia. É urgência.

O Atlético 2026 ainda não perdeu. Mas também ainda não convenceu. E, no futebol brasileiro, empatar demais no início costuma ser só uma forma elegante de atrasar problemas.