O Atlético-MG conseguiu aquilo que só o futebol brasileiro domina com excelência: criar uma crise sem a bola rolar. Janeiro mal começou, o elenco nem suou o uniforme, e o principal personagem da última era do clube já está com data de validade pública, ressentimento privado e um textão oficial no Instagram.
Hulk fica. Mas vai embora. Ama o clube. Mas se sente desvalorizado. Cumpre contrato. Mas não renova. O Atlético, por sua vez, diz que nunca falou em aposentadoria, mas ofereceu homenagens dignas de despedida em velório de ídolo vivo. No meio disso tudo, ninguém mente descaradamente — o que torna tudo pior.
Porque essa não é uma história de vilão e mocinho. É uma história de duas vaidades mal geridas.
O clube acha que está sendo institucional. O jogador acha que está sendo humano. E ambos esquecem que, no futebol, o simbólico pesa tanto quanto o contrato. Oferecer estátua, documentário e discurso de legado para quem ainda quer jogar é como entregar um álbum de formatura no meio do semestre. Não é carinho — é recado.
Hulk, por outro lado, escolheu o caminho mais moderno e mais destrutivo: a rede social como tribunal. Quando um ídolo lava roupa suja em público, ele não se fortalece — ele racha. Não só a relação com a diretoria, mas com a arquibancada, que passa a escolher lados numa briga que não precisava existir.
O resultado é um lose-lose clássico.
O Atlético fica com um jogador caro, insatisfeito, fora do centro do projeto, esperando dezembro como quem conta os dias para pedir exoneração. Hulk fica com um clube onde já não se sente desejado, num ano que deveria ser de celebração, não de tensão passiva-agressiva.
E tudo isso para quê?
Para confirmar o óbvio que ninguém quis dizer com clareza: o tempo passou. Hulk segue sendo gigante na história do clube, mas já não é mais o mesmo em campo. O Atlético segue sendo grande, mas ainda tropeça na forma como lida com seus símbolos. Um tenta se eternizar. O outro tenta virar página sem admitir.
No futebol, ídolos não acabam — são mal encerrados. E o que está em jogo agora não é um contrato até dezembro. É a memória que vai ficar depois.
Ainda dá tempo de terminar melhor.
Mas o relógio, diferente do Hulk, não pede renovação.

