Nos últimos anos, vídeos de jovens usando máscaras de raposa, orelhas de lobo ou andando de quatro em parques e quintais viralizaram nas redes sociais. Em muitos casos, esses criadores se identificam como therians — um termo que desperta curiosidade, confusão e, não raramente, polêmica. Mas afinal, o que significa ser therian? Trata-se de fantasia? Movimento cultural? Questão psicológica? Ou algo mais complexo?
Para compreender o fenômeno, é preciso separar camadas históricas, mitológicas, culturais e digitais que se entrelaçam na formação dessa identidade contemporânea.
A origem do termo e suas raízes históricas
A palavra “teriantropia” vem do grego theríon (animal selvagem) e anthrōpos (ser humano). Historicamente, o termo foi utilizado para descrever figuras que combinam características humanas e animais — algo bastante presente em mitologias antigas.
Civilizações como a egípcia retratavam deuses com corpos humanos e cabeças de animais, como Anúbis e Rá. No folclore europeu, surgiram narrativas de transformação física, como a licantropia (lobisomens). Em diversas culturas africanas e asiáticas, histórias de homens-leão, homens-hiena e xamãs que assumiam formas animais também aparecem com frequência.
No entanto, a teriantropia contemporânea não está necessariamente ligada à crença literal de transformação física. O significado moderno é mais subjetivo e identitário.
O que significa ser therian hoje?
Atualmente, therians são pessoas que afirmam se identificar, em algum nível interno, como um animal não humano. Essa identificação pode ser descrita como espiritual, psicológica ou simbólica. A espécie com a qual o indivíduo se identifica é chamada de teriótipo — e os relatos mais comuns envolvem lobos, raposas, cães e gatos.
Importante destacar: a maioria dos therians reconhece que possui corpo humano. A identificação não envolve acreditar que houve transformação biológica. Trata-se de uma experiência interna de identidade.
Alguns relatam sentir desde a infância uma conexão profunda com determinada espécie, descrevendo sensações como “membros fantasmas” (por exemplo, a sensação de ter cauda ou orelhas), comportamentos instintivos ou forte afinidade emocional com aquele animal.
A internet e o crescimento da comunidade
O movimento ganhou forma nos anos 1990 em fóruns online ligados à comunidade otherkin — pessoas que se identificam como seres não humanos, como elfos ou criaturas mitológicas. Com o tempo, surgiu uma distinção: therians passaram a designar aqueles cuja identificação está ligada a animais reais.
Hoje, redes como TikTok, Instagram e Reddit ampliaram exponencialmente a visibilidade do grupo. Vídeos de “quadrobics” (movimentos inspirados na locomoção animal), uso de máscaras artesanais e debates sobre identidade animal acumulam milhões de visualizações.
Essa exposição trouxe dois efeitos simultâneos: fortalecimento da comunidade e aumento das críticas.
Diferença entre therian e furry
Um ponto importante de esclarecimento envolve a diferença entre therians e furries — dois grupos frequentemente confundidos.
A comunidade furry é centrada no interesse artístico e cultural por personagens animais antropomórficos (como desenhos, quadrinhos e fantasias). É uma subcultura criativa, muitas vezes associada a convenções e produção artística.
Já os therians afirmam que sua identificação é parte de quem são, não apenas uma apreciação estética ou hobby.
Embora exista sobreposição entre membros das duas comunidades, os conceitos são distintos.
Aspectos psicológicos: há consenso científico?
Não há, até o momento, uma classificação oficial da teriantropia como transtorno psicológico. Especialistas tendem a analisar o fenômeno dentro de contextos mais amplos de construção identitária, especialmente na adolescência e juventude — fases marcadas por exploração de pertencimento e autodefinição.
Existe, contudo, um quadro clínico raro chamado licantropia clínica, no qual a pessoa acredita ter se transformado fisicamente em animal. Essa condição geralmente está associada a psicose severa. Entretanto, isso não representa a experiência da maioria dos therians, que mantêm plena consciência de sua condição humana.
Alguns pesquisadores sugerem que a teriantropia pode funcionar como mecanismo simbólico de expressão emocional, forma de pertencimento comunitário ou construção narrativa da identidade pessoal.
O papel das redes sociais na amplificação do fenômeno
A cultura digital tem papel central na expansão do movimento. Plataformas baseadas em vídeo curto favorecem tendências visuais e comportamentais. Além disso, algoritmos aproximam jovens que compartilham experiências semelhantes, criando microcomunidades com forte senso de pertencimento.
Em um ambiente onde identidade é constantemente performada e negociada online, movimentos como o therian encontram terreno fértil.
Ao mesmo tempo, a exposição pública gera reações intensas — desde apoio até ridicularização. O debate frequentemente extrapola a compreensão e entra no campo da polarização.
Identidade, simbolismo e sociedade contemporânea
O crescimento da teriantropia levanta questões mais amplas sobre identidade no século XXI. Vivemos um período em que categorias tradicionais de pertencimento — culturais, religiosas e até profissionais — perderam parte da rigidez. A internet permite que indivíduos explorem novas narrativas sobre si mesmos.
Nesse contexto, identificar-se como animal pode funcionar como metáfora de traços percebidos internamente: instinto, liberdade, força, independência ou sensibilidade.
Para críticos, trata-se de exagero identitário ou fuga da realidade. Para membros da comunidade, é uma forma legítima de autocompreensão.
Independentemente da posição adotada, o fenômeno revela algo importante: a necessidade humana de significado e pertencimento permanece intacta, apenas assume novas linguagens.
Um fenômeno em transformação
Como muitos movimentos nascidos na internet, a teriantropia ainda está em processo de definição social. Pode se consolidar como subcultura estável, pode se fragmentar ou pode se transformar com o tempo.
O que é certo é que não se trata apenas de vídeos virais ou fantasias. O tema envolve identidade, cultura digital, psicologia e mudanças sociais mais amplas.
Em vez de respostas simplistas, o fenômeno exige compreensão cuidadosa. Afinal, ao longo da história, a humanidade sempre buscou maneiras simbólicas de explicar sua própria natureza — e, muitas vezes, recorreu aos animais para isso.
Talvez a pergunta central não seja apenas “o que são therians?”, mas também: o que essa identificação revela sobre como estamos redefinindo o que significa ser humano em um mundo cada vez mais digital?

