Enquanto o Brasil ainda digere a virada de ano e lamenta a Mega da Virada, os Estados Unidos resolveram começar 2026 com o pé na porta e tapa na cara da diplomacia: Donald Trump ordenou o sequestro de Nicolás Maduro. Sim, sequestro. Não “captura”, como boa parte da imprensa tentou pintar.
Quando um governo invade o território de outro país, intercepta o presidente e o remove à força com fins declaradamente políticos e econômicos, o nome disso não é operação, nem estratégia. É abdução. Puro imperialismo vintage, versão streaming.
Não é sobre democracia. É sobre petróleo.
O próprio Trump não fez questão de esconder o jogo: disse que, entre os motivos da ação, está o interesse pelos recursos da Venezuela — o país com as maiores reservas de petróleo do mundo. Não demorou para aparecerem seus aliados tentando dourar a pílula. O senador Marco Rubio, por exemplo, soltou essa pérola:
“Não queremos o petróleo da Venezuela. Temos o suficiente. Só não queremos que nossos adversários (leia-se China, Rússia e Irã) o controlem.”
Ou seja: não se trata de salvar o povo venezuelano, mas de garantir que quem explora as riquezas naturais seja “do clube certo”. Aquela velha história de liberdade, mas só pra quem joga no seu time.
E se fosse a Rússia?
Imagine o caos diplomático se fosse Vladimir Putin sequestrando Volodymyr Zelensky em nome da segurança energética da Eurásia. Ou se Xi Jinping decidisse “capturar” a presidente de Taiwan como gesto unilateral de reunificação. O mundo estaria em chamas. Mas quando são os EUA? Tudo certo. Copa do Mundo mantida. Negócios como sempre.
A hipocrisia é geopolítica
Não dá pra fingir surpresa. Os EUA sempre se reservaram o direito de fazer o que bem entendem em nome de seus “interesses estratégicos”. O sequestro de Maduro é só mais um capítulo. E se ninguém frear, o próximo pode ser em outro continente.
Mas o que realmente escancara o nível do debate político é a reação de parte da direita brasileira. O deputado-falastrão Nikolas Ferreira comemorou o sequestro em inglês — talvez achando que está na ONU — e sugeriu que outros “ditadores” latino-americanos (incluindo ministros do STF, segundo seu raciocínio confuso) deveriam ter o mesmo destino.
Quando a burrice vira política externa
É surreal ver um político brasileiro defendendo, em outra língua, que presidentes eleitos e ministros da justiça sejam sequestrados por potências estrangeiras. É uma mistura de vaidade adolescente com completa ignorância sobre soberania nacional, direito internacional e, principalmente, bom senso.
Mas claro, como discutir esses conceitos com quem até ontem estava convocando boicote contra uma marca de chinelo?
No fim, sobra a pergunta
Quem vai parar Trump? Quem vai dizer que não dá pra brincar de superpotência do século passado? Que sequestrar chefes de Estado não é solução — é sinal de decadência.
Talvez ninguém. Porque, ao que tudo indica, o mundo ainda aceita que os EUA façam o que quiserem. E que seus aduladores locais traduzam aplaudindo.

