🔥 Tem promoção rolando agora — quer ficar por dentro de tudo?
Entra no grupo e receba só as melhores ofertas, sem spam.
📲 Entrar no grupo agora →Augusto Cury chegou à entrevista da Globo com uma vantagem incomum para um candidato a presidente: poucas pessoas esperavam saber exatamente o que ele defendia.
Isso permite surpreender.
O problema é que também permite surpreender pelos motivos errados.
Na sabatina com César Tralli e Renata Vasconcellos, o candidato do Avante apresentou propostas sobre economia, Previdência, saúde, segurança, educação, inteligência artificial e até diplomacia. Em alguns momentos, mostrou preocupações perfeitamente razoáveis. Em outros, parecia estar tentando resolver problemas estruturais brasileiros com a mesma facilidade de quem sugere instalar um aplicativo novo no celular.
Entre boas perguntas e respostas que ainda precisam conhecer o conceito de “detalhamento”, estes foram os sete pontos mais importantes da entrevista.
1. Cortar cargos comissionados e revisar gastos: aqui existe uma discussão séria
Cury defendeu uma auditoria na administração pública, com revisão de aproximadamente 50 mil cargos comissionados, análise de contratos e combate a desperdícios e corrupção.
Aqui faz sentido.
Independentemente da posição ideológica, revisar despesas, avaliar estruturas administrativas e perguntar se determinadas funções continuam justificadas é uma discussão legítima.
O problema está no velho abismo entre:
“vamos cortar desperdícios”
e
“estes são os desperdícios, este é o valor economizado e estas são as consequências”.
Todo candidato brasileiro descobre desperdícios durante a campanha com a mesma facilidade com que criança encontra chocolate escondido na despensa.
Cury também promete eliminar entre oito e dez ministérios, mas não quis dizer quais.
É aí que a proposta começa a perder musculatura.
Cortar “dez ministérios” é uma frase.
Dizer quais serão incorporados, quais estruturas desaparecerão, quantos servidores serão deslocados e quanto isso efetivamente economiza é política pública.
Até lá, temos um conceito razoável aguardando uma planilha.
Veredito: faz sentido, mas falta mostrar a conta.
2. Aumentar imposto das bets para cerca de 52%: uma das propostas mais concretas
Cury afirmou que pretende aumentar de 12% para algo próximo de 52% a tributação sobre empresas de apostas.
Independentemente de concordar ou não com o percentual, existe aqui pelo menos uma tese política identificável:
um setor altamente lucrativo e associado a custos sociais deveria contribuir mais para a arrecadação.
Isso é discutível.
E justamente por ser discutível, é uma proposta muito melhor do que promessas abstratas.
É possível perguntar:
- o percentual é economicamente sustentável?
- empresas migrariam para operações ilegais?
- quanto seria arrecadado?
- como seria feita a fiscalização?
- haveria impacto sobre consumidores?
Ótimo.
Isso significa que temos algo que pode ser debatido.
É uma evolução considerável em relação a propostas cuja explicação depende basicamente de “confia”.
Veredito: faz sentido discutir; o percentual precisa de fundamentação.
3. Colocar milhões de pessoas do Bolsa Família no mercado de trabalho: objetivo correto, mecanismo nebuloso
Cury disse que pretende aumentar receitas públicas ajudando algo entre 10 milhões e 15 milhões de beneficiários do Bolsa Família a entrar no mercado formal ou se tornar microempreendedores.
É difícil discordar do objetivo.
Se famílias conseguem aumentar sua renda de maneira sustentável e deixam de depender de transferência pública, excelente.
O Brasil inteiro ganha.
A questão é justamente a palavra que costuma assassinar promessas eleitorais:
como?
Não basta decidir que milhões de pessoas passarão a trabalhar formalmente.
Emprego depende de:
- crescimento econômico;
- escolaridade;
- qualificação;
- localização;
- disponibilidade de vagas;
- cuidado infantil;
- transporte;
- situação regional;
- demanda empresarial.
Transformar beneficiário do Bolsa Família em MEI também não cria magicamente clientes.
CNPJ não é Pokémon.
Você não evolui economicamente apenas porque ganhou um número de cadastro.
Veredito: diagnóstico razoável; solução apresentada ainda é vaga demais.
4. Telemedicina em 80% das consultas básicas do SUS: aqui Cury começou a viajar na maionese
Provavelmente foi um dos momentos mais frágeis da entrevista.
Cury propõe que 80% das consultas básicas do SUS sejam realizadas por telemedicina.
Os entrevistadores fizeram uma pergunta bastante inconveniente para qualquer proposta eleitoral baseada em números redondos:
por que 80%?
Cury respondeu que é médico e que existem muitas evidências sobre a eficácia da telemedicina.
O problema é que isso não responde à pergunta.
Telemedicina funcionar em determinadas situações não demonstra que 80% das consultas básicas de um sistema que atende mais de 200 milhões de brasileiros devam acontecer remotamente.
São questões diferentes.
Existe um debate sério sobre telemedicina.
Ela pode:
- ampliar acesso;
- reduzir deslocamentos;
- facilitar acompanhamento;
- acelerar determinadas consultas;
- ajudar regiões com escassez de especialistas.
Tudo ótimo.
Mas implantar uma meta nacional de 80% exige responder:
- quais consultas seriam remotas?
- quais continuariam presenciais?
- como ficariam pacientes sem internet adequada?
- como seriam realizados exames físicos?
- qual infraestrutura seria necessária?
- como funcionaria em municípios pequenos?
- quanto custaria?
A entrevista, segundo o relato disponível, não trouxe essas respostas.
Para completar, os jornalistas apontaram que Cury aparecia como embaixador de uma empresa privada de telemedicina. Ele afirmou não manter mais relação com ela e prometeu retirar o endosso.
Não significa automaticamente conflito de interesse.
Mas certamente significa que o assunto merecia exatamente o escrutínio que recebeu.
Veredito: telemedicina faz sentido. O número de 80%, sem fundamentação apresentada, parece ter sido retirado do chapéu.
5. Drones contra violência contra a mulher: tecnologia procurando um problema para resolver
Cury também defendeu o uso de drones no combate à violência contra mulheres.
Aqui entramos definitivamente na área:
“parece moderno, portanto deve funcionar”.
O candidato complementou a proposta defendendo um aplicativo georreferenciado com botão de pânico, capaz de acionar autoridades próximas.
O aplicativo é uma ideia compreensível.
Mecanismos de alerta rápido e integração policial podem ter aplicação concreta, desde que exista:
- resposta operacional;
- estrutura policial;
- cobertura;
- proteção de dados;
- protocolos;
- acompanhamento.
Agora chegamos aos drones.
O relato da entrevista registra que Cury não detalhou como eles seriam operacionalizados.
E esse detalhe é razoavelmente importante.
O drone faria o quê?
Seguir o agressor?
Chegar primeiro que a polícia?
Filmar?
Emitir alerta?
Entregar uma palestra motivacional pelo alto-falante?
Tecnologia não é política pública apenas porque consegue voar.
O problema da violência contra mulheres envolve proteção policial, medidas protetivas, Judiciário, abrigos, monitoramento de agressores, prevenção e capacidade de resposta.
Um drone pode eventualmente integrar alguma solução específica.
Mas apresentá-lo como elemento central sem explicar exatamente sua função transforma inovação em decoração.
Veredito: botão de emergência merece discussão. Drone, do jeito apresentado, viajou bastante na maionese.
6. Influenciadores nas embaixadas: parece absurdo até você separar a ideia da embalagem
Essa provavelmente é a proposta mais fácil de transformar em meme.
Cury defendeu a contratação de influenciadores digitais para atuar em embaixadas brasileiras e ajudar a “vender o Brasil” no exterior.
A primeira reação natural é imaginar um TikToker fazendo publi do país:
“Galera, cupom BRASIL10 válido até domingo.”
Só que existe uma ideia legítima escondida debaixo da formulação estranha.
Países fazem nation branding.
Governos promovem:
- turismo;
- cultura;
- exportações;
- investimentos;
- gastronomia;
- imagem internacional.
E comunicação digital faz parte disso.
Portanto, utilizar criadores de conteúdo em estratégias específicas de promoção internacional não é necessariamente absurdo.
O problema aparece quando Cury afirma que Itamaraty e Instituto Rio Branco não estariam cumprindo adequadamente esse papel e apresenta influenciadores quase como solução institucional.
Diplomacia não é campanha de Instagram.
Influenciadores podem complementar comunicação.
Não substituem diplomatas, política externa ou estratégia comercial.
Veredito: a ideia central tem alguma lógica; a embalagem escolhida por Cury implora para virar meme.
7. Dez mil escolas de empreendedorismo: boa intenção com cheiro de curso online nacional
Cury propôs criar 10 mil escolas de empreendedorismo.
Quando pressionado sobre como isso funcionaria, explicou que não seriam necessariamente novas construções: utilizaria estruturas de escolas públicas e incorporaria empreendedorismo à grade.
Professores receberiam capacitação online com participação de grandes empresários.
Aqui temos uma mistura interessante.
Ensinar noções de:
- finanças;
- organização;
- empreendedorismo;
- economia;
- gestão;
- mercado de trabalho;
pode ser útil.
Especialmente num país onde muita gente chega à vida adulta sem entender juros compostos, imposto ou diferença entre faturamento e lucro.
A questão é transformar “empreendedorismo” em solução universal.
Nem todo aluno precisa abrir empresa.
Nem todo problema de emprego é resolvido criando MEI.
E empresário bem-sucedido não é automaticamente bom educador.
Convidar empreendedores para contribuir pode enriquecer um programa.
Transformá-los em eixo pedagógico nacional exige muito mais cuidado.
Caso contrário, corremos o risco de trocar aula de matemática por:
“Você precisa sair da zona de conforto.”
E provavelmente já existem palestras suficientes dizendo isso.
Veredito: educação financeira e empreendedorismo fazem sentido; “10 mil escolas” parece mais slogan do que desenho educacional consolidado.
A entrevista de Augusto Cury revelou algo mais interessante do que simplesmente descobrir se ele é “de direita ou esquerda”.
Ele parece possuir uma característica comum a candidatos vindos de fora da política: identifica problemas reais e frequentemente pula algumas etapas entre o diagnóstico e a solução.
Telemedicina?
Boa ferramenta.
80% do SUS?
Calma.
Tecnologia para proteger mulheres?
Ótimo.
Drones?
Precisamos conversar.
Comunicação digital internacional?
Absolutamente.
Influenciador em embaixada?
Talvez seja melhor explicar isso outra vez.
Há ideias que merecem debate e outras que precisam urgentemente abandonar o palco da palestra motivacional e conhecer pessoas menos glamourosas chamadas orçamento, logística, evidência e implementação.
E talvez essa tenha sido a principal mensagem involuntária da entrevista.
Augusto Cury mostrou que tem propostas.
Agora precisa demonstrar que elas sobrevivem ao contato com a administração pública.

