augusto cury é de esquerda ou direita

7 principais pontos da entrevista de Augusto Cury na Globo: onde ele faz sentido — e onde viajou na maionese

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Augusto Cury chegou à entrevista da Globo com uma vantagem incomum para um candidato a presidente: poucas pessoas esperavam saber exatamente o que ele defendia.

Isso permite surpreender.

O problema é que também permite surpreender pelos motivos errados.

Na sabatina com César Tralli e Renata Vasconcellos, o candidato do Avante apresentou propostas sobre economia, Previdência, saúde, segurança, educação, inteligência artificial e até diplomacia. Em alguns momentos, mostrou preocupações perfeitamente razoáveis. Em outros, parecia estar tentando resolver problemas estruturais brasileiros com a mesma facilidade de quem sugere instalar um aplicativo novo no celular.

Entre boas perguntas e respostas que ainda precisam conhecer o conceito de “detalhamento”, estes foram os sete pontos mais importantes da entrevista.

1. Cortar cargos comissionados e revisar gastos: aqui existe uma discussão séria

Cury defendeu uma auditoria na administração pública, com revisão de aproximadamente 50 mil cargos comissionados, análise de contratos e combate a desperdícios e corrupção.

Aqui faz sentido.

Independentemente da posição ideológica, revisar despesas, avaliar estruturas administrativas e perguntar se determinadas funções continuam justificadas é uma discussão legítima.

O problema está no velho abismo entre:

“vamos cortar desperdícios”

e

“estes são os desperdícios, este é o valor economizado e estas são as consequências”.

Todo candidato brasileiro descobre desperdícios durante a campanha com a mesma facilidade com que criança encontra chocolate escondido na despensa.

Cury também promete eliminar entre oito e dez ministérios, mas não quis dizer quais.

É aí que a proposta começa a perder musculatura.

Cortar “dez ministérios” é uma frase.

Dizer quais serão incorporados, quais estruturas desaparecerão, quantos servidores serão deslocados e quanto isso efetivamente economiza é política pública.

Até lá, temos um conceito razoável aguardando uma planilha.

Veredito: faz sentido, mas falta mostrar a conta.

2. Aumentar imposto das bets para cerca de 52%: uma das propostas mais concretas

Cury afirmou que pretende aumentar de 12% para algo próximo de 52% a tributação sobre empresas de apostas.

Independentemente de concordar ou não com o percentual, existe aqui pelo menos uma tese política identificável:

um setor altamente lucrativo e associado a custos sociais deveria contribuir mais para a arrecadação.

Isso é discutível.

E justamente por ser discutível, é uma proposta muito melhor do que promessas abstratas.

É possível perguntar:

  • o percentual é economicamente sustentável?
  • empresas migrariam para operações ilegais?
  • quanto seria arrecadado?
  • como seria feita a fiscalização?
  • haveria impacto sobre consumidores?

Ótimo.

Isso significa que temos algo que pode ser debatido.

É uma evolução considerável em relação a propostas cuja explicação depende basicamente de “confia”.

Veredito: faz sentido discutir; o percentual precisa de fundamentação.

3. Colocar milhões de pessoas do Bolsa Família no mercado de trabalho: objetivo correto, mecanismo nebuloso

Cury disse que pretende aumentar receitas públicas ajudando algo entre 10 milhões e 15 milhões de beneficiários do Bolsa Família a entrar no mercado formal ou se tornar microempreendedores.

É difícil discordar do objetivo.

Se famílias conseguem aumentar sua renda de maneira sustentável e deixam de depender de transferência pública, excelente.

O Brasil inteiro ganha.

A questão é justamente a palavra que costuma assassinar promessas eleitorais:

como?

Não basta decidir que milhões de pessoas passarão a trabalhar formalmente.

Emprego depende de:

  • crescimento econômico;
  • escolaridade;
  • qualificação;
  • localização;
  • disponibilidade de vagas;
  • cuidado infantil;
  • transporte;
  • situação regional;
  • demanda empresarial.

Transformar beneficiário do Bolsa Família em MEI também não cria magicamente clientes.

CNPJ não é Pokémon.

Você não evolui economicamente apenas porque ganhou um número de cadastro.

Veredito: diagnóstico razoável; solução apresentada ainda é vaga demais.

4. Telemedicina em 80% das consultas básicas do SUS: aqui Cury começou a viajar na maionese

Provavelmente foi um dos momentos mais frágeis da entrevista.

Cury propõe que 80% das consultas básicas do SUS sejam realizadas por telemedicina.

Os entrevistadores fizeram uma pergunta bastante inconveniente para qualquer proposta eleitoral baseada em números redondos:

por que 80%?

Cury respondeu que é médico e que existem muitas evidências sobre a eficácia da telemedicina.

O problema é que isso não responde à pergunta.

Telemedicina funcionar em determinadas situações não demonstra que 80% das consultas básicas de um sistema que atende mais de 200 milhões de brasileiros devam acontecer remotamente.

São questões diferentes.

Existe um debate sério sobre telemedicina.

Ela pode:

  • ampliar acesso;
  • reduzir deslocamentos;
  • facilitar acompanhamento;
  • acelerar determinadas consultas;
  • ajudar regiões com escassez de especialistas.

Tudo ótimo.

Mas implantar uma meta nacional de 80% exige responder:

  • quais consultas seriam remotas?
  • quais continuariam presenciais?
  • como ficariam pacientes sem internet adequada?
  • como seriam realizados exames físicos?
  • qual infraestrutura seria necessária?
  • como funcionaria em municípios pequenos?
  • quanto custaria?

A entrevista, segundo o relato disponível, não trouxe essas respostas.

Para completar, os jornalistas apontaram que Cury aparecia como embaixador de uma empresa privada de telemedicina. Ele afirmou não manter mais relação com ela e prometeu retirar o endosso.

Não significa automaticamente conflito de interesse.

Mas certamente significa que o assunto merecia exatamente o escrutínio que recebeu.

Veredito: telemedicina faz sentido. O número de 80%, sem fundamentação apresentada, parece ter sido retirado do chapéu.

5. Drones contra violência contra a mulher: tecnologia procurando um problema para resolver

Cury também defendeu o uso de drones no combate à violência contra mulheres.

Aqui entramos definitivamente na área:

“parece moderno, portanto deve funcionar”.

O candidato complementou a proposta defendendo um aplicativo georreferenciado com botão de pânico, capaz de acionar autoridades próximas.

O aplicativo é uma ideia compreensível.

Mecanismos de alerta rápido e integração policial podem ter aplicação concreta, desde que exista:

  • resposta operacional;
  • estrutura policial;
  • cobertura;
  • proteção de dados;
  • protocolos;
  • acompanhamento.

Agora chegamos aos drones.

O relato da entrevista registra que Cury não detalhou como eles seriam operacionalizados.

E esse detalhe é razoavelmente importante.

O drone faria o quê?

Seguir o agressor?

Chegar primeiro que a polícia?

Filmar?

Emitir alerta?

Entregar uma palestra motivacional pelo alto-falante?

Tecnologia não é política pública apenas porque consegue voar.

O problema da violência contra mulheres envolve proteção policial, medidas protetivas, Judiciário, abrigos, monitoramento de agressores, prevenção e capacidade de resposta.

Um drone pode eventualmente integrar alguma solução específica.

Mas apresentá-lo como elemento central sem explicar exatamente sua função transforma inovação em decoração.

Veredito: botão de emergência merece discussão. Drone, do jeito apresentado, viajou bastante na maionese.

6. Influenciadores nas embaixadas: parece absurdo até você separar a ideia da embalagem

Essa provavelmente é a proposta mais fácil de transformar em meme.

Cury defendeu a contratação de influenciadores digitais para atuar em embaixadas brasileiras e ajudar a “vender o Brasil” no exterior.

A primeira reação natural é imaginar um TikToker fazendo publi do país:

“Galera, cupom BRASIL10 válido até domingo.”

Só que existe uma ideia legítima escondida debaixo da formulação estranha.

Países fazem nation branding.

Governos promovem:

  • turismo;
  • cultura;
  • exportações;
  • investimentos;
  • gastronomia;
  • imagem internacional.

E comunicação digital faz parte disso.

Portanto, utilizar criadores de conteúdo em estratégias específicas de promoção internacional não é necessariamente absurdo.

O problema aparece quando Cury afirma que Itamaraty e Instituto Rio Branco não estariam cumprindo adequadamente esse papel e apresenta influenciadores quase como solução institucional.

Diplomacia não é campanha de Instagram.

Influenciadores podem complementar comunicação.

Não substituem diplomatas, política externa ou estratégia comercial.

Veredito: a ideia central tem alguma lógica; a embalagem escolhida por Cury implora para virar meme.

7. Dez mil escolas de empreendedorismo: boa intenção com cheiro de curso online nacional

Cury propôs criar 10 mil escolas de empreendedorismo.

Quando pressionado sobre como isso funcionaria, explicou que não seriam necessariamente novas construções: utilizaria estruturas de escolas públicas e incorporaria empreendedorismo à grade.

Professores receberiam capacitação online com participação de grandes empresários.

Aqui temos uma mistura interessante.

Ensinar noções de:

  • finanças;
  • organização;
  • empreendedorismo;
  • economia;
  • gestão;
  • mercado de trabalho;

pode ser útil.

Especialmente num país onde muita gente chega à vida adulta sem entender juros compostos, imposto ou diferença entre faturamento e lucro.

A questão é transformar “empreendedorismo” em solução universal.

Nem todo aluno precisa abrir empresa.

Nem todo problema de emprego é resolvido criando MEI.

E empresário bem-sucedido não é automaticamente bom educador.

Convidar empreendedores para contribuir pode enriquecer um programa.

Transformá-los em eixo pedagógico nacional exige muito mais cuidado.

Caso contrário, corremos o risco de trocar aula de matemática por:

“Você precisa sair da zona de conforto.”

E provavelmente já existem palestras suficientes dizendo isso.

Veredito: educação financeira e empreendedorismo fazem sentido; “10 mil escolas” parece mais slogan do que desenho educacional consolidado.

A entrevista de Augusto Cury revelou algo mais interessante do que simplesmente descobrir se ele é “de direita ou esquerda”.

Ele parece possuir uma característica comum a candidatos vindos de fora da política: identifica problemas reais e frequentemente pula algumas etapas entre o diagnóstico e a solução.

Telemedicina?

Boa ferramenta.

80% do SUS?

Calma.

Tecnologia para proteger mulheres?

Ótimo.

Drones?

Precisamos conversar.

Comunicação digital internacional?

Absolutamente.

Influenciador em embaixada?

Talvez seja melhor explicar isso outra vez.

Há ideias que merecem debate e outras que precisam urgentemente abandonar o palco da palestra motivacional e conhecer pessoas menos glamourosas chamadas orçamento, logística, evidência e implementação.

E talvez essa tenha sido a principal mensagem involuntária da entrevista.

Augusto Cury mostrou que tem propostas.

Agora precisa demonstrar que elas sobrevivem ao contato com a administração pública.